Se você usa adoçante no café achando que está fazendo uma escolha mais saudável, talvez valha a pena conhecer o que os estudos recentes descobriram sobre a sucralose.
A sucralose está em adoçantes de mesa, refrigerantes diet, iogurtes, sucos e dezenas de outros produtos. É o edulcorante artificial mais consumido no mundo.
Com a crescente desconfiança em relação ao açúcar, muita gente migrou para ela sem questionar se a troca era de fato segura. A resposta, como costuma acontecer em nutrição, não é simples
A sucralose faz mal? Resumo rápido
A evidência científica atual indica que:
- É segura dentro da ingestão diária recomendada
- Pode alterar microbiota em alguns contextos
- Não é indicada para aquecimento intenso
- Não foi proibida pela OMS
- Não há prova conclusiva de câncer
Sucralose faz mal à saúde?
A sucralose é aprovada por órgãos reguladores como FDA (EUA) e Anvisa (Brasil) e considerada segura dentro da ingestão diária aceitável (IDA) de 5 mg por kg de peso corporal. Estudos recentes, porém, apontam associações entre o consumo regular e alterações na microbiota intestinal, na resposta glicêmica e no metabolismo lipídico. A Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu um alerta sobre adoçantes artificiais em 2023, recomendando cautela no uso prolongado.
O que é sucralose
A sucralose é um adoçante artificial derivado da sacarose, o açúcar de mesa comum. Ela é produzida substituindo três grupos hidroxila da molécula de sacarose por três átomos de cloro. Essa modificação química tem dois efeitos principais: aumenta o poder adoçante em até 600 vezes em relação ao açúcar e impede que o organismo a metabolize como fonte de energia, resultando em zero calorias.
Foi descoberta acidentalmente em 1976 por pesquisadores do Queen Elizabeth College, em Londres, em parceria com a empresa Tate & Lyle. O FDA autorizou seu uso nos Estados Unidos em 1998. No Brasil, a Anvisa também a aprova como aditivo alimentar. Está presente em mais de 80 países.
Como a sucralose age no organismo
Após a ingestão, mais de 85% da sucralose consumida chega ao intestino grosso sem ser absorvida. Isso significa que ela transita pelo trato gastrointestinal em contato direto com a microbiota intestinal, o conjunto de bactérias que vive no cólon e que tem papel central no metabolismo, na imunidade e na regulação do apetite.
A sucralose também interage com receptores de sabor doce presentes no intestino (chamados T1R3). Essa interação pode sinalizar ao pâncreas para liberar insulina mesmo sem a presença de glicose no sangue, um mecanismo estudado em pesquisas recentes que pode afetar a regulação glicêmica ao longo do tempo.
O pequeno percentual que é absorvido é eliminado principalmente pela urina, sem metabolização significativa.
Potenciais riscos: o que os estudos mostram
Alterações na microbiota intestinal
Uma revisão publicada na revista Life em fevereiro de 2024, conduzida por pesquisadores do Hospital Geral do México, analisou os efeitos metabólicos da sucralose e concluiu que seu consumo está associado à disbiose intestinal, uma redução na diversidade e no equilíbrio das bactérias benéficas do intestino.
Um estudo publicado na revista Microorganisms em 2022, com adultos jovens consumindo sucralose por dez semanas, observou alterações na composição da microbiota e mudanças nos níveis de glicose e insulina em jejum.
Os resultados em humanos ainda são inconsistentes: algumas pesquisas não encontram efeito em doses próximas ao consumo real da população, enquanto outras apontam alterações em populações específicas.
Resposta glicêmica e saciedade
Um ensaio clínico randomizado publicado na revista Nature Metabolism em março de 2025, com 75 adultos jovens, comparou os efeitos de sucralose, sacarose e água na atividade cerebral e na fome.
A sucralose aumentou o fluxo sanguíneo no hipotálamo e as respostas de fome, ao contrário da sacarose, que reduziu a atividade hipotalâmica.
Os pesquisadores concluíram que adoçantes não calóricos podem influenciar mecanismos cerebrais que regulam o apetite.
Uma análise de 2023 publicada na revista Diabetes Care, com 105.588 participantes do estudo NutriNet-Santé (França), acompanhados por 9,1 anos em média, encontrou associação entre consumo elevado de adoçantes artificiais, incluindo a sucralose, e maior risco de desenvolvimento de diabetes tipo 2. Trata-se de um estudo observacional, o que impede conclusões de causalidade.
Instabilidade ao calor
Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenados pelo professor Rodrigo Ramos Catharino, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, demonstraram que a sucralose se torna quimicamente instável quando aquecida a 98°C.
O estudo, publicado na revista Scientific Reports (grupo Nature), detectou a liberação de hidrocarbonetos policíclicos aromáticos clorados (HPACs), compostos tóxicos e de efeito cumulativo no organismo.
O aquecimento a temperaturas de forno (acima de 200°C), como no preparo de bolos, potencializa ainda mais a degradação.
O próprio coordenador da pesquisa reforça: a sucralose em temperatura ambiente, sem aquecimento, não representa esse risco.
Benefícios reconhecidos
Os benefícios da sucralose são reais e têm respaldo em órgãos como a American Diabetes Association e o Diabetes UK.
Por não elevar a glicose no sangue, ela é uma alternativa viável para pessoas com diabetes ou que precisam controlar a glicemia. Por não ter calorias, pode ajudar na redução do consumo calórico total quando substitui o açúcar em bebidas e alimentos. Seu sabor é estável, sem amargor residual, o que facilita a adesão.
Esses benefícios, porém, dependem do contexto. A sucralose não é uma solução isolada para emagrecer ou controlar o diabetes: funciona dentro de uma dieta alimentar equilibrada.
Riscos e limitações: o que ponderar
A pesquisa sobre sucralose ainda está em curso e os estudos têm limitações importantes. Boa parte das evidências de alteração intestinal vem de experimentos em animais, com doses que raramente refletem o consumo humano. Estudos observacionais em humanos não permitem estabelecer causalidade.
O alerta da OMS em 2023 não proibiu a sucralose, mas recomendou não usar adoçantes artificiais como estratégia de longo prazo para controle de peso, por falta de evidências de benefício sustentado e pela possibilidade de efeitos metabólicos ainda não completamente compreendidos.
A IDA estabelecida pelo JECFA (Comitê de Especialistas em Aditivos Alimentares da FAO/OMS) é de 0 a 15 mg por kg de peso corporal. A maioria dos consumidores fica bem abaixo desse limite no uso cotidiano do adoçante de mesa. O problema pode estar no consumo acumulado por pessoas que ingerem muitos produtos industrializados com sucralose ao longo do dia.
Como usar sucralose de forma segura na prática
Prefira o uso em temperatura ambiente
As evidências mais preocupantes envolvem aquecimento intenso da sucralose, como assados e preparações prolongadas em alta temperatura. Ainda não há consenso científico de risco relevante no uso ocasional em bebidas quentes.
Evitar o uso da sucralose em receitas que vão ao forno é a orientação mais direta que emerge dos estudos disponíveis.
Para cozinhar com adoçante, adoçantes termicamente estáveis como eritritol ou estévia são opções mais estudadas nesse contexto.
Atenção ao consumo acumulado em industrializados
A sucralose está presente em refrigerantes diet, iogurtes, sucos, balas, gelatinas e uma série de produtos ultraprocessados.
Quem consome muitos desses itens ao longo do dia pode acumular uma dose relevante, mesmo sem usar adoçante de mesa.
Ler rótulos e identificar "sucralose" ou "INS 955" na lista de ingredientes é um passo prático.
Não usar como substituto permanente do açúcar sem rever o padrão alimentar
A troca de açúcar por sucralose não resolve, por si só, o problema do consumo excessivo de doces. Estudos sugerem que adoçantes artificiais podem manter o hábito de consumir sabores muito doces, dificultando a readaptação do paladar.
A redução gradual do doce em geral, seja de açúcar ou de adoçante, é a estratégia com melhor suporte para quem quer mudar o padrão alimentar a longo prazo.
O que a ciência ainda não sabe sobre sucralose
Há lacunas relevantes no conhecimento atual. Os estudos sobre microbiota foram feitos majoritariamente em animais ou com amostras pequenas de humanos. Não está claro se as alterações observadas persistem com o uso prolongado ou se o organismo se adapta.
Também não se sabe ao certo qual o impacto cumulativo do consumo de sucralose a partir de múltiplas fontes alimentares industrializadas ao longo de anos. A maioria dos estudos analisa o adoçante isolado, não o efeito do conjunto de aditivos presentes em uma dieta ultraprocessada.
Os HPACs identificados no estudo da Unicamp são uma classe de compostos ainda pouco estudada. Seus efeitos específicos na saúde humana em exposição alimentar ainda precisam de mais pesquisa.
Sucralose x outros adoçantes
| Adoçante | Impacto glicêmico | Pode aquecer? | Principais ressalvas |
| Sucralose | Nenhum | Com cautela | degradação térmica |
| Eritritol | Nenhum | Sim | desconforto GI em excesso |
| Estévia | Nenhum | Sim | sabor residual |
| Xilitol | Baixo | Sim | efeito laxativo |
FAQ
Sucralose é pior do que o açúcar?
Depende do contexto. Em quantidade moderada e sem aquecimento, a sucralose não tem as calorias do açúcar e não eleva a glicemia. Para pessoas com diabetes ou em dieta calórica controlada, pode ser preferível. Para quem busca reduzir o consumo de doces em geral, nenhum dos dois é necessário.
Sucralose engorda?
Não diretamente, pois não tem calorias. Há estudos que sugerem, porém, que adoçantes artificiais podem influenciar o apetite e a resposta hormonal à saciedade, o que pode, em alguns contextos, dificultar o controle do peso. A evidência ainda não é conclusiva.
Diabéticos podem usar sucralose?
A American Diabetes Association e o Diabetes UK consideram a sucralose uma alternativa segura para pessoas com diabetes, pois não eleva a glicose. O consumo deve ser feito dentro dos limites recomendados e como parte de uma dieta equilibrada, não como solução isolada para controle glicêmico.
Posso usar sucralose para fazer bolos?
Com base nos estudos disponíveis, o uso da sucralose em receitas que vão ao forno não é recomendado. O aquecimento acima de 98°C pode gerar compostos orgânicos potencialmente tóxicos. Para receitas quentes, eritritol ou estévia são alternativas mais seguras nesse contexto.
Sucralose causa câncer?
Não há evidência científica estabelecida de que o consumo de sucralose dentro da IDA cause câncer. O estudo da Unicamp identificou compostos potencialmente cancerígenos liberados pelo aquecimento, não pelo consumo em temperatura ambiente.
Estudos sobre carcinogenicidade em ratos tiveram resultados mistos e não foram suficientes para alterar a classificação regulatória do composto.
A OMS proibiu a sucralose?
Não. Em 2023, a OMS publicou uma diretriz desaconselhando o uso de adoçantes artificiais como estratégia de longo prazo para controle de peso, por falta de benefício sustentado e possíveis riscos metabólicos. Isso não equivale a uma proibição. A sucralose permanece aprovada para consumo.
Sucralose aumenta a insulina?
A relação não é direta, mas há evidências de que a sucralose pode interferir no metabolismo da insulina. Um ensaio clínico randomizado publicado no American Journal of Clinical Nutrition (2018) observou redução de 17,7% na sensibilidade à insulina em participantes que consumiram sucralose regularmente, em comparação ao grupo controle.
Estudos in vitro sugerem que a sucralose ativa receptores de sabor doce no intestino, estimulando a liberação de incretinas que potencializam a secreção de insulina, especialmente quando combinada com carboidratos. Os resultados entre estudos ainda são inconsistentes e o mecanismo em humanos não está completamente estabelecido.
Sucralose altera a microbiota intestinal?
Estudos em animais mostram alterações consistentes na composição da microbiota com o consumo de sucralose, incluindo redução de bactérias benéficas como bifidobactérias e lactobacilos. Em humanos, os resultados são mais variados.
Um estudo clínico publicado na revista Microorganisms (2022), com adultos jovens consumindo sucralose por dez semanas, observou disbiose intestinal e alterações nos níveis de glicose e insulina.
A principal razão é que mais de 85% da sucralose ingerida chega ao intestino grosso sem ser absorvida, interagindo diretamente com a microbiota. Ainda não há consenso sobre a magnitude e a reversibilidade dessas alterações em humanos.
Grávidas podem consumir sucralose?
A sucralose é classificada como risco B para gestantes pelas principais agências reguladoras, o que significa ausência de evidências de dano em estudos com animais e sem estudos controlados em humanos.
A Anvisa estabelece uma IDA de 15 mg por kg de peso corporal, e como a maior parte da sucralose é eliminada na urina sem ser metabolizada, considera-se improvável que cause danos ao feto em quantidades moderadas.
A Sociedade Brasileira de Diabetes inclui a sucralose entre os adoçantes que gestantes com diabetes podem usar com moderação.
Por precaução, a recomendação geral é consultar o obstetra ou nutricionista antes de incluir qualquer adoçante artificial na dieta durante a gravidez.
Conclusão
A sucralose não é o vilão que alguns afirmam, nem tão inofensiva quanto os rótulos de adoçantes sugerem. Aprovada por agências reguladoras em mais de 80 países, ela representa uma alternativa real ao açúcar para quem precisa controlar a glicemia ou reduzir calorias. Ao mesmo tempo, pesquisas recentes levantam questões legítimas sobre seus efeitos na microbiota intestinal, no apetite e na segurança quando aquecida.
O alerta da OMS em 2023 foi um chamado para mais cautela, não um veredito de perigo. Para quem usa adoçante de mesa com moderação, sem aquecimento, e dentro dos limites estabelecidos, as evidências atuais não indicam risco significativo. Para quem consome muitos produtos industrializados com sucralose diariamente, vale atenção à soma do consumo. A ciência ainda está construindo o quadro completo sobre esse composto.
Mais importante do que escolher entre açúcar ou sucralose é conhecer os melhores substitutos do açúcar e construir uma relação menos dependente do sabor excessivamente doce no dia a dia.a.
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Fontes
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SILVA, F. R. et al. O uso de adoçantes na gravidez: uma análise dos produtos disponíveis no Brasil. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, v. 29, n. 5, p. 267-275, 2007. Disponível em: https://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/lil-464665.









